Terapia Ocupacional: O que é, o que faz e com quem?

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Artigo Publicado no Portal InspireSaúde

Autor: Terapeuta Ocupacional Margarida Sabino

Em muitos casos a resposta não surge de forma imediata. A verdade é que apesar de ser uma abordagem terapêutica em expansão em todo o mundo e cuja eficácia tem vindo a ganhar reconhecimento, em Portugal poucas são as pessoas que conhecem este tipo de terapia, em que casos a sua utilização pode ser uma mais-valia e o que faz exatamente um Terapeuta Ocupacional…

A Terapia Ocupacional é uma área da saúde que atua no tratamento e reabilitação de pessoas de todas as idades, de modo a facilitar e capacitar para a realização das actividades do dia-a-dia que as mesmas deixaram de poder fazer por força de alguma condição clínica (motora, cognitiva, emocional ou social). Essas condições podem estar presentes desde o nascimento, serem desenvolvidas com a idade ou resultarem de um acidente, doença ou lesão.

O Terapeuta Ocupacional pode aplicar a sua abordagem em diversas áreas, como a pediatria (casos de atraso global do desenvolvimento, síndrome de down, paralisia cerebral, autismo, etc), a medicina física e reabilitação (casos de AVC, quadros neurológicos e ortopédicos, etc), a geriatria (problemáticas específicas do envelhecimento, alzheimer e outros quadros demenciais, parkinson, etc), ou na psiquiatria (esquizofrenia, doença bipolar, depressão, etc).

Devido à diversidade de população e de quadros clínicos abrangidos pelo acompanhamento prestado pelos Terapeutas Ocupacionais, estes podem intervir nos mais diversos locais, tais como Clínicas Médicas, Clínicas de Reabilitação e Clínicas de Saúde Mental; Creches, Jardins-de-infância e Escolas; Domicílios; Hospitais e Centros de saúde; Centros de dia e Lares; Empresas de Produtos de Apoio e Ajudas técnicas e outras; Instituições particulares de solidariedade social (IPSS), Cooperativas de Ensino e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados (CERCI), Associações Portuguesas de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM), Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral (APPC).

O objetivo da acção desenvolvida por estes profissionais de saúde passa por encontrar meios para que as pessoas alcancem a sua autonomia e independência e possam utilizar ao máximo as suas potencialidades. Nesse sentido, o Terapeuta Ocupacional avalia as actividades que a pessoa não consegue realizar, olhando para todos os aspectos da sua vida diária (casa, escola, trabalho, lazer), de forma a encontrar soluções para que possa ser mais autónoma e independente. Simultaneamente compreende e analisa quais são as estruturas e/ou funções que estão a limitar o desempenho do paciente, procedendo-se então à construção de um plano de intervenção adequado, individualizado e verdadeiramente personalizado.

A intervenção do Terapeuta Ocupacional assenta principalmente no recurso a actividades/ocupações significativas com o intuito de restaurar ou manter funções. Através dessa abordagem é possível estimular e desenvolver competências e simultaneamente despertar o interesse e participação do paciente para ter parte ativa no seu próprio processo de reabilitação. O treino de actividades da vida diária consideradas problemáticas pelo utente, a adaptação de utensílios e de mobiliário, o aconselhamento de mudanças no ambiente onde a pessoa realiza as suas actividades e, ainda, a orientação de cuidadores são também aspectos centrais na intervenção do Terapeuta Ocupacional.

Alguns exemplos de intervenção

Deixo apenas três exemplos práticos da intervenção do Terapeuta Ocupacional com grupos populacionais distintos: crianças com perturbação do espectro de autismo, doentes em recuperação de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e pessoas com depressão.

A Terapia Ocupacional pode ajudar crianças com perturbação do espectro do autismo utilizando como ferramenta terapêutica jogos/brincadeiras cuidadosamente selecionados para permitir desenvolver as competências físicas, mentais, percetivas e sensoriais e técnicas que ajudam estas crianças a tornarem-se mais confortáveis com novas experiências sensoriais (imagens, sons, cheiros, paladar, movimento, etc..), que beneficiarão o envolvimento em todas as actividades que realizam. A intervenção com estes casos objetiva ajudar as crianças a realizar as atividades importantes para o seu desenvolvimento, nomeadamente, na participação nos autocuidados, no brincar e na vida escolar. Por outro lado, realizar o treino de determinadas atividades consideradas problemáticas para a criança, dividir as tarefas em passos simples e introduzir pistas/lembretes, são algumas estratégias implementadas.

Nos casos de pessoas com sequelas de AVC o Terapeuta Ocupacional utiliza atividades significativas, estimulando o aumento de força, a mobilidade, o equilíbrio, as funções cognitivas, etc, para restaurar a funcionalidade e a autonomia, mantendo a motivação do paciente durante o processo de reabilitação. Não menos importante é o ensinamento de estratégias e o aconselhamento de equipamentos para que o paciente consiga realizar as actividades de forma independente. As estratégias podem incluir técnicas de uso de apenas uma mão para cortar alimentos, usar o computador, vestir. Já os equipamentos poderão ser, a titulo de exemplo, calçadeiras com cabo engrossado, barras de apoio para o banho, entre outras.

Relativamente a pessoas que sofrem de depressão, estas poderão ter dificuldades em manter as suas atividades diárias devido à própria sintomatologia desta condição, podendo encontrar no Terapeuta Ocupacional um profissional que as vai orientar na busca por um equilíbrio entre as várias áreas da vida (trabalho, lazer e auto-cuidados). Cabe então ao Terapeuta Ocupacional examinar o que está a interferir no desempenho da pessoa (diminuição de interesses, dificuldades nas competências sociais, etc), utilizando estratégias e actividades para ultrapassar as dificuldades e ir de encontro às responsabilidades dos seus papéis significativos. Um papel cuja perda tem um grande impacto na vida ocupacional de uma pessoa com depressão é o de trabalhador. Nestes casos (perda do emprego), a intervenção poderá assentar na implementação de estratégias como a criação de um plano de procura de emprego e actividades como a criação de currículo e treino de entrevista de emprego, com vista a reabilitar a pessoa, não só para o mercado de trabalho, mas para o controlo da sua própria vida.

Se gostaria de saber mais acerca da Terapia Ocupacional e se o seu caso, do seu filho, ou de um familiar, se enquadra no que acaba de ler, não hesite em contactar um profissional. E não se esqueça, Terapia Ocupacional só com um Terapeuta Ocupacional!