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Artigo publicado em Revista Crescer

Entrevista à Psicóloga Alexandra Rosa

Em cada 100 casamentos, há 64 divórcios, segundo os dados divulgados pelo PORDATA, referentes a 2017. Apesar de um casal tomar a decisão depois de refletir bem, quando há filhos, é sempre difícil gerir a situação, até porque muitas crianças sentem que são a verdadeira razão da separação..

Quando os pais se separam, há que preparar as crianças para as mudanças que se avizinham. Há muitas questões a colocar: Como se dá uma notícia destas a um filho? Como será viver em duas casas? E como explicar-lhe que poderá vir a ter uma madrasta ou um padrasto?

Também por parte dos pais há dificuldades e sentimentos a gerir. A distribuição do tempo, a gestão familiar, as saudades quando se está longe… Há cada vez mais pais a procurarem ajuda psicológica para tentar encarar a situação da melhor forma.

O site Crescer entrevistou a psicóloga Alexandra Rosa, do projeto Fale Connosco – Saúde Personalizada, para esclarecer todas as questões dos pais que estão a passar por este processo de separação.

Como é que um filho encara um divórcio, consoante as idades? 

Exceptuando em situações específicas, em que um dos pais tinha muito pouca presença e participação na vida e rotinas diárias de criança, um divórcio implica sempre uma mudança. A criança vai na maioria das vezes antecipar essa mudança com algum nível da ansiedade. Cabe aos pais estarem cientes que vai ser exigido ao filho esse esforço de adaptação e em conjunto desenvolverem estratégias para minorar, na medida do possível, o impacto nas rotinas diárias dos filhos.

Que preparação devem ter?

Deve-se procurar envolver a criança num clima de muita tranquilidade, escutar as suas dúvidas e receios e procurar dar-lhe muita segurança. Se as fases de maior reatividade da criança a estes acontecimentos de vida pode ser maior entre os quatro e os 16 anos, a verdade é que mesmo um adulto já com vida autónoma e independente pode ter uma reação emocional forte muito negativa à notícia da separação dos seus pais.

Quais são os maiores erros que os pais cometem (antes e depois do divórcio)?

Envolver os filhos nas suas discussões, procurar que os filhos se afastem emocionalmente do outro progenitor. Eu explico sempre aos pais que mesmo no divórcio o casal deve saber preservar a sua intimidade e não envolver os filhos que são alheios às suas problemáticas conjugais. Depois do divórcio, os filhos têm que continuar a fazer parte do projeto de vida dos pais. Casos acontecem em que as crianças se tornam «sobras» de um casamento falhado e isso não devia acontecer.

A ajuda do psicólogo é fundamental no processo de divórcio para as crianças?

Durante o processo de separação e nos primeiros anos após o divórcio os pais deverão estar muito atentos a pequenos sinais como alguma alteração de comportamento ou problemas de saúde. Devem perceber como a criança está na escola, como se relaciona com os colegas, se evidência algum sinal de mal-estar psicológico. Caso isso se observe não deverão hesitar e procurar ajuda psicológica o mais rápido possível.

Qual o impacto que pode ter no presente/futuro a nível psicológico?

A separação dos pais vai sempre fazer parte da história de vida de uma criança. Vai sempre ter algum impacto por menor que ele seja, contudo num processo bem conduzido não tem que representar um trauma, uma cicatriz psicológica. É o papel dos pais ajudar a criança a atravessar esta situação de vida com segurança.

As crianças podem sentir que são a verdadeira causa do divórcio… Como tentar combater essa ideia?

Fazer-lhes entender que eles não têm, nem nunca tiveram, esse poder. Que os filhos nunca são a causa de uma separação nem têm a capacidade de remediar os afetos de um casal em rutura. Temos que os ajudar a separar os planos, que a relação romântica que os pais tinham pertencia a uma esfera autónoma da relação que os pais têm com o filho. Temos que desenvolver neles a noção de «casal romântico» e «casal parental». O casal parental nunca se separa!

Como se dá a notícia a um filho?

Tem muito a ver com a idade. Se a criança já tem algum entendimento do mundo à sua volta, começa-se a falar com ela sobre outras referências que a ajudem a situar-se. Designar outras crianças que ela conheça, cujos pais já sejam separados e tentar falar sobre a perceção e pré-conceitos que ela tem sobre essas realidades familiares. Depois começar a abordar a alteração de rotinas que se avizinha, esclarecendo sempre que nunca está em causa o casal parental, mas sim o casal conjugal.

Como se explica a uma criança que vai ter duas casas, mas vai viver permanentemente só com a mãe ou só com o pai?

Bem, isso hoje em dia já não é tanto assim. Já tive pais que optaram por deixar os filhos a viver sempre na mesma casa e quem «sai e entra» nos dias previstos são o pai e a mãe. Cada vez mais frequente é uma partilha de tempo equilibrada em que as crianças ficam igual tempo em casa de um ou de outro progenitor. O estar em permanência só com um dos elementos do casal parental é, felizmente, cada vez mais raro e em situações mais particulares.

Como se explica que vai ter que habitar em dois espaços distintos?

Simplesmente explicando que o pai e a mãe vão ser mais felizes assim, logo os filhos também serão mais felizes, e que vai ter um espaço próprio personalizado em casa dos dois. Que tudo pode mudar menos o afeto e a necessidade que os pais têm de estar com eles.

O que acontece quando a criança perde o contacto com o pai?

Depende de como era a relação entre eles, da história de vida que existia entre aquele pai e aquele filho. Depende se esse afastamento ocorre por vontade própria do pai ou se por intervenção de terceiros. Tendo em conta todas as variantes, podemos observar situações em que para essa criança o afastamento foi um alívio e outras para quem essa perda se torna uma ferida traumática com implicações para o resto da sua vida.

Como gerir o sentimento de raiva/ódio que os pais têm um do outro? De que forma podem gerir esses sentimentos sem afetar o próprio filho?

É muito difícil o controlo destas emoções. Quando se diz que a raiva «nos cega» significa que ela passa a dominar as nossas atitudes e ações impedindo-nos de pensar racionalmente e olhar para as consequências e efeitos colaterais. É nestas situações que eu digo que o apoio de um psicólogo é muito importante para ajudar a gerir esses sentimentos e evitar que eles extravasem e afetem significativamente os filhos.

Em relação aos pais, como é que um pai ou mãe se prepara psicologicamente para a «perda» diária de um filho, com quem sempre conviveu diariamente?

O ideal é que essa perda seja minimizada tendo em conta aspetos como: uma boa distribuição do tempo entre o pai e a mãe e que sempre que possível se observe proximidade geográfica entre a casa de ambos e a escola dos filhos. Exige alguma ginástica, mas é possível continuar a acompanhar e a estar presente na vida dos filhos. Também se deve olhar para os aspetos positivos, os pais separados acabam por ter a oportunidade de gerir melhor o seu tempo pessoal e o tempo de dedicação exclusiva aos filhos. Esta questão afeta tanto homens como mulheres, mas curiosamente na minha vida profissional surgem mais os pais (do que as mães), preocupados e com receio de perderem qualidades na relação parental.

Como explicar a uma criança que o pai ou mãe arranjou outra pessoa e ele irá ter que lidar com uma madrasta ou padrasto?

Depende muito da idade da criança. À partida os pais deverão ir com naturalidade introduzindo o contacto com a nova amiga/amigo do pai/mãe. Com tempo e sem pressas porque as relações constroem-se e isso leva tempo. Há que ter essa paciência. A seu tempo aborda-se com a criança a possibilidade de inclusão desta terceira pessoa no seu espaço e nas suas rotinas. O nosso filho deve sempre ser assegurado que a inclusão de uma nova pessoa não vai pôr em causa a relação pais-filhos.

Ao longo dos seus 20 anos de carreira consegue destacar algumas diferenças entre a forma como os pais lidavam com o processo antigamente e como lidam agora?

Há alguns anos, a separação/divórcio tinha frequentemente como consequência desigualdades nas relações parentais. O modelo seria a mãe ficar com os filhos praticamente a tempo inteiro e o pai ficava remetido a um «part-time» de dois fins de semana por mês e um jantar a meio da semana. Isto acontecia em quase todas as situações porque se considerava que a mãe é que tinha competências para cuidar e educar crianças e os homens seriam incompetentes nestas áreas. Esta visão foi mudando e o próprio homem reivindica o seu direito de estar presente na vida dos filhos, de os mimar e educar. Lutaram e muito bem por este direito.

Constato também uma crescente procura de consultas de aconselhamento parental, os seja os pais já não se limitam a levar o seu filho ao psicólogo nestes momentos de vida, querem eles também sentir-se orientados e assegurados do caminho a seguir.