O meu Natal…

O meu amigo tem cancro…
30/04/2017
Ao colo dos avós
30/04/2017

Autor: Psicóloga Alexandra Rosa

Chegados a esta época do ano, junto com luzes e enfeites que irrompem um pouco por todo o lado, somos invadidos por estados de espírito mais ou menos eufóricos, mais ou menos melancólicos, mas a verdade é que raramente ficamos indiferentes ao Natal.

A referida festividade há muito que extravasou o propósito inicial de comemorar o nascimento de Jesus. O Natal é na realidade um caleidoscópio de propósitos e intenções. O meu natal é diferente do teu natal, que é necessariamente diferente do natal do outro.

Aliás, o meu natal de hoje não é o natal da minha infância, e não será certamente o natal que viverei daqui a 20 anos. Contudo o denominador comum reside na ilusão e no sonho, que, no fundo, a grande maioria de nós partilha nesta data: a de que o mundo pode ser melhor, nós podemos ser melhores e subitamente a vida aparenta ser mais aconchegante e cheia de significado. A forma como cada um de nós festeja, ajuda a dar forma à nossa identidade, os rituais associados são securizantes e organizadores. Esta ideia de que comungamos de algo com o resto do universo leva-nos a procurar a proximidade e união: é altura de estar e rever família e amigos, alguns esquecidos ao longo de meses. É altura de ir “à minha terra” ter com os “meus” e cumprir os “nossos rituais”. E este é o verdadeiro cerne das comemorações natalícias: é a FAMÌLIA. São as nossas origens, as raízes, o encontro com o nosso substrato, com aquilo que somos. E consoante os afectos e relações que temos, ou não, com aqueles a quem chamamos família, vai ser o tom emocional ao nosso natal:

A Família para quem se tem que comprar as prendas, ou

A Família que eu detesto, ou

A família que amo, ou

A família que acolhe, ou

A família inexistente, ou

A família desavinda, ou

A Família da qual eu tenho saudades, ou

A Família que perdi, ou

A família que ganhei, ou

A família ….

E é por isso que os nossos natais mudam ao longo dos anos, porque as famílias mudam, transformam-se e nós mudamos também. Resolvo assim, invadida também por uma necessidade de partilha, abrir um pouco a janela da minha alma e falar-vos do MEU Natal.:

– As memórias dos natais da minha infância levam-me para um lugar repleto de cores e cheiros. Os natais eram sempre passados no Alentejo, em casa dos avós, e os dias que antecipavam o 25 de Dezembro eram de pura alegria. Lembro-me do cheiro a madeira queimada que emanava das lareiras, o cheiro do óleo quente onde a avó fritava as filhoses, da bisavó a tricotar à pressa as últimas camisolas de malha, para oferecer aos seus muitos netos e bisnetos, às quais juntava uma romã… Na dia 24 recordo todo o empenho nas refeições e nos doces, o que remetia o mulherio da casa para a cozinha a maior parte do dia. Depois finalmente era o clímax da antecipação da chegada do “menino Jesus”. Sim, porque era ele quem entregava as prendas e não o agora mais modernaço pai natal. Após um enorme estrondo vindo da chaminé da cozinha (devido ao engenho do meu avô, que estendia um fio de pesca ao longo do corredor até ao seu sofá para, na hora H, puxar e fazer a portada do postigo da cozinha bater bem alto), lá ia eu a tremer de medo e emoção agarradinha às saias da minha avó, ver se as prendinhas já estavam à minha espera. Parte do medo devia-se a uma crença pessoal de que se o Menino Jesus fosse visto nunca mais entregaria prendas, e isso é algo que nenhuma criança quer. Mesmo quando, já com 8 ou 9 anos, sabia que os brinquedos tinham sido comprados em Espanha e que tudo acontecia graças à minha família, optei por fazer de conta que ainda acreditava, pois no fundo era tão bom que eu não queria largar aquele sonho.

Claro que tudo foi terminando por força dos anos, cresci e tive que aceitar que o natal era diferente: os avós que envelheceram e os natais que passaram a ser em Lisboa. A minha querida avó que faleceu. Quando mais tarde formei a minha própria família, dividi o “meu natal” em três (os pais do meu marido são divorciados).
Tem sido difícil encontrar novamente a alegria e o conforto dos meus natais de infância, no fundo sei que nunca mais vou viver momentos iguais a esses. Quando nasceram os meus filhos descobri um novo significado nesta festividade e esforço-me anualmente por lhes dar um pouco daquilo que eu tive. Este ano o meu filho mais velho, já com 8 anos fez uma lista para o Pai Natal e eu fico contente por ele, nos dias de hoje, ainda ter esta crença. Ou se calhar ele quer muito continuar a acreditar e não quer largar o seu sonho, tal como há 30 anos atrás a mãe também não queria acordar …

E para si? o que tem sido os natais?

Que este “seu” natal seja para si um Feliz Natal!