Dificuldades de leitura e escrita: o que são? O que fazer? Quem pode ajudar?

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02/11/2018

Autores: Terapeuta da Fala Vânia Paula, Terapeuta Ocupacional Margarida Sabino e Psicóloga Isabel Santos

Muitas são as crianças que entrando no ensino primário se debatem com dificuldades a ler e a escrever, um processo complexo de aprendizagem de competências linguísticas, cognitivas e também sensório-motoras. Ainda assim, essas dificuldades são geralmente o culminar de lacunas que vêm surgindo ao longo do desenvolvimento das competências base da leitura e escrita.

Assim, estimular desde cedo é essencial e pode estar à distância de uma folha branca, livros de histórias escolhidos pela criança, folhetos ou revistas, brinquedos, jogos e atividades que a criança goste ou de músicas e lengalengas.
São nesses momentos de partilha, no conjunto de todos os estímulos, no contacto, na relação com o outro, nas vivências e nas experiências que lhes oferecemos que surgem momentos ótimos para, por exemplo, favorecer o desenvolvimento da linguagem e, por conseguinte, o conhecimento e identificação dos sons da fala que, mais tarde, irão dar-lhe representação gráfica através das letras, o desenvolvimento da motricidade fina com o desenvolvimento de competências manuais imprescindíveis para o controlo adequado do lápis ou o desenvolvimento das competências de perceção visual que permitirão à criança ler o que está no quadro, fazer uma cópia à distância ou organizar um texto na folha. Estamos, portanto, a enriquecer as competências necessárias e fundamentais para a aprendizagem da leitura e escrita e, assim, prevenir eventuais dificuldades aquando a entrada para o 1º ciclo.
Porém, as dificuldades poderão ainda assim surgir e, nestes casos, é ainda mais importante ajudar as crianças a explorar e a procurar novas razões para ler e escrever mas de uma forma divertida! Por exemplo ao ajudar nas tarefas domésticas através de escrever a lista das compras, a ler uma receita de um bolo delicioso para o lanche ou em interpretar o papel do professor e ler uma história para a sua família.

Mas afinal o que são estas dificuldades de leitura e escrita?

São perturbações do neurodesenvolvimento que dificultam a capacidade de aprender ou utilizar competências académicas específicas de leitura e escrita, que são a base fundamental para as restantes aprendizagens escolares. Estas dificuldades surgem independentemente do nível intelectual da criança e da sua motivação.

E a Dislexia, Disortografia, Disgrafia e/ou Discalculia, fazem parte das dificuldades de leitura e escrita?
A Dislexia é considerada uma Perturbação Específica de Linguagem, pelo que apresenta etiologia neurobiológica e afeta a aprendizagem e utilização instrumental da leitura, com destaque nas lacunas fonológicas, independente do quociente de inteligência ou condições educativas.

É, portanto, imprescindível que o diagnóstico de Dislexia seja obtido e analisado através de uma avaliação multidisciplinar, e só é possível estabelecer efetivamente o diagnóstico a partir do 2.º ano de escolaridade.
Características da criança com dislexia que devo estar alerta:

  • Lacunas ao nível da consciência fonológica;
  • Dificuldades na evocação, definição de palavras e no reconto de histórias;
  • Dificuldades em corresponder adequadamente o grafema (letra) ao fonema (som) e na discriminação auditiva dos sons da fala;
  • Alterações na leitura: lenta, com baixa expressividade e com pouco ritmo.

Tal como a Dislexia, considera-se a Disortografia também como uma Perturbação Específica da Aprendizagem de origem neurobiológica, com impacto na palavra pelo conjunto de erros de escrita, sem alterações no traço ou grafia. Trata-se, portanto, de dificuldades na organização, estruturação e composição de enunciados escritos, através da construção de frases curtas e pobres com variados erros ortográficos.
Características dos erros ortográficos sentidas nas crianças com disortografia:

  • Linguístico-percetivo: omissões de letras, adições de fonemas, sílabas ou palavras; inversão de letras na palavra;
  • Visuoespacial: substituição de letras visualmente semelhantes ou que se diferenciam pela sua posição no espaço; escrita de palavras em espelho; omissão da letra H;
  • Erros na escrita através do ditado, na escrita livre ou até em cópia, referente às regras de ortografia: por exemplo na pontuação e acentuação;
  • Relativos ao conteúdo: dificuldade na fronteira de palavras (junta ou separa palavras inadequadamente).

Quanto à Disgrafia, esta é uma perturbação relacionada com a execução gráfica e de escrita das palavras, de tipo funcional. Afeta, portanto, a qualidade da escrita ao nível do traçado ou grafia, com caligrafia desviante à norma, letras pouco diferenciadas, mal construídas e desproporcionais, a tipicamente considerada como “letra feia”.
Sinais de alerta observáveis em crianças com disgrafia:

  • Desorganização espacial na folha e/ou desorganização do texto;
  • Postura gráfica incorreta (má pega e utilização do lápis ou caneta);
  • Caligrafia exageradamente grande ou pequena;
  • Letras distorcidas ou inclinadas que tornam a escrita irreconhecível;
  • Traçado desproporcionado e grosso que pode até vincar o papel, ou demasiado suave e impercetível;
  • Escrita de letras ou números pelo traçado inverso (de baixo para cima);
  • Escrita demasiado rápida ou lenta;
  • Erros e borrões.

Relativamente à Discalculia, é considerada como uma desordem neurobiológica específica com impacto na compreensão e manipulação de números, afetando assim as competências de matemática. São verificadas estas dificuldades na compreensão de enunciados dos problemas, no tempo excessivo que precisam para decidir a operação a realizar (soma, subtração, divisão, entre outros) e noutros casos na incapacidade de finalizar uma operação simples. É de ressalvar que estes sinais podem não estar associados à preguiça, desmotivação ou desinteresse.
Características a que se deve estar atento, nos casos de discalculia:

  • Dificuldades nos conceitos de medidas, na aprendizagem das horas e na compreensão do valor do dinheiro;
  • Dificuldades nas contagens de números;
  • Alterações na identificação de números e na compreensão de quantidades ou símbolos;
  • Inaptidão para correspondência recíproca, por exemplo na associação de um número à contagem de objetos.

Assim, quais os sinais a que devo estar atento?

Embora o diagnóstico só possa ser realizado após o início da escolaridade, é possível detetar fragilidades já no período pré-escolar. A intervenção precoce permite que a criança ultrapasse mais facilmente as suas dificuldades, pelo que é muito importante um olhar muito atento a alguns sinais, tais como o início tardio da linguagem, a dificuldade na produção de alguns sons e dificuldades nas rimas, lengalengas e canções infantis.

No 1º ciclo, é fundamental que os pais estejam atentos a alguns sinais de alerta, que podem revelar indícios de dificuldades nas competências de leitura e escrita formal, tais como:

  • Trocas gráficas de letras ou em fazer a adequada relação grafema-fonema (letra-som);
  • Dificuldades em identificar e autocorrigir os erros/trocas escritas;
  • Leitura lentificada (silabada, com manipulação oral dos sons e/ou seguir com o dedo…) ou demasiado rápida;
  • Dificuldade na compreensão do enunciado lido, em recontar ou responder a perguntas de interpretação;
  • Alterações na entoação da leitura (por vezes até monocórdica) e em respeitar os sinais de pontuação;
  • Leitura global das palavras ou por adivinhação tendo em conta o contexto das frases;
  • Dificuldade em escrever textos com encadeamento de ideias por ordem dos acontecimentos e/ou em desenvolver um tema;
  • Alterações linguísticas (tanto ao expressar-se como em compreender, ao nível dos vários domínios: como sintaxe, morfologia, fonologia, pragmática e semântica);
  • Escrita ilegível;
  • Lentidão na execução das tarefas de escrita e/ou grande cansaço durante as tarefas de escrita;
  • Dificuldades no desenho das letras, espaçamentos e/ou pobre organização na página
  • Dificuldade em fazer cópias do quadro e/ou em seguir a leitura de um texto (ex. perde-se na folha).

Quem pode ajudar?

Consideramos fundamental o trabalho em equipa (Terapeuta da Fala, Ocupacional, Psicólogo, docente de EE) nas dificuldades de leitura e escrita e em respostas de intervenção adequadas às necessidades das nossas crianças.

  • O Terapeuta da Fala intervém nas alterações dos sons da fala bem como nas dificuldades linguísticas e de leitura e escrita, com etiologias distintas, entre elas as perturbações específicas da linguagem, as perturbações fonológicas, as perturbações de aprendizagem, entre outras;
  • O Terapeuta Ocupacional intervém ao nível das dificuldades de escrita manual que poderão ter como base alterações de motricidade fina e global bem como dificuldades ao nível da perceção visual;
  • O Psicólogo colabora no processo de avaliação cognitiva e neuropsicológica, que contribui para uma caracterização mais detalhada das dificuldades, intervém ao nível do desenvolvimento das competências de planeamento, organização e memória, bem como nas dificuldades emocionais e comportamentais que, por vezes, acompanham as perturbações de leitura e escrita.

Estar alerta e atento é essencial, pois permite um rastreio atempado e um acompanhamento precoce. Para nós é crucial desenvolver planos personalizados direcionados para as reais dificuldades de cada criança.