Conhecer a pessoa com doença de Alzheimer…

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Autor: Terapeuta da Fala Andreia Batista

A doença de Alzheimer é complexa e implica diversas alterações, nomeadamente ao nível da linguagem e alimentação.

O que é?

A doença de Alzheimer carateriza-se, de uma forma resumida, por alterações neuropsicológicas com predominância das perturbações de memória, linguagem, reconhecimento e da escrita, assim como alterações do comportamento, ansiedade, depressão, agressividade e alucinações. É uma doença neurodegenerativa progressiva, com múltiplas etiologias e que converge para a perda neuronal. A nível neuropatológico pode observar-se a presença de atrofia cerebral, placas senis no cérebro, novelos neofibrilares, entre outros. A idade em que a doença de Alzheimer começa a desenvolver-se é muito variável e a sua evolução pode ser lenta ou rápida.

Etiologia

A sua etiologia assume uma multiplicidade de fatores, desde fatores genéticos a fatores ambientais. Alterações do metabolismo cerebral, a idade, a presença de historial familiar de Alzheimer, traumatismos cranianos, a existência de pelo menos uma cópia do alelo Apo-E4 no cromossoma 19, Síndrome de Down (trissomia 21), hipertensão arterial sistólica e o baixo nível educacional, são alguns dos fatores de risco descritos na literatura. Por outro lado, a existência do alelo Apo-E2 ou E3 no cromossoma 19, níveis educacionais altos, o uso de estrogénios e de fármacos anti-inflamatórios são sugeridos como fatores protetores.

Estádios da doença de Alzheimer

Estádio Inicial (leve)

– Redução do desempenho nas Atividades de Vida Diária (AVD’s), trabalho, lazer, atividades sociais e no controlo das finanças;
– Dificuldade ao nível da memória recente como lembrar o nome das pessoas que conheceu nos últimos tempos, recados, compromissos recentes;
– Perda de fluência no discurso com anomias (dificuldade em evocar o nome de algo) e parafasias (troca de palavras);
– Ligeira dificuldade de compreensão;
– Desorientação espacial e temporal;
– Irritabilidade, ansiedade, oscilações de humor e depressão.

Estádio Intermédio

– Dependência nas AVD’s e agressividade;
– Delírios sistematizados de roubo, infidelidade e perseguição;
– Alucinações auditivas e visuais;
– Nomeação/compreensão comprometidas e repetição de ideias;
– Discurso com parafasias, neologismos (palavras inventadas) e dificuldade em manter o tópico;
– Apraxia (alteração no planeamento e programação de atos motores voluntários);
– Perturbação do ritmo sono-vigília.

Estádio Final

– Todas as áreas linguísticas comprometidas;
– Ecolalia (repetição de palavras ou frases anteriormente memorizadas/ouvidas) ou mutismo (ausência de linguagem);
– Alterações na interação;
– Agnosias (incapacidade para reconhecer ou identificar objetos);
– Não reconhecimento de pessoas e lugares;
– Agitação contínua, deambulação ininterrupta ou apatia;
– Disfagia com risco de aspiração e pneumonias;
– A marcha, o sentar, o controlo de cabeça e o sorriso social tornam-se cada vez mais difíceis;
– Dependência total.

Geralmente o alerta é dado com a presença das falhas de memória, que familiares e amigos mais próximos detetam. No entanto, as alterações podem ser tão subtis que a família atribui o esquecimento à idade. As alterações linguísticas (como afasia) e ao nível da alimentação (como disfagia e/ou a presença de apraxia bucofacial) são atividades da área de intervenção do Terapeuta da Fala.

Ao nível da Linguagem, a pessoa com Alzheimer começa a ter dificuldades na procura de alguma palavra durante o discurso espontâneo e, quando solicitada, apresenta dificuldade em nomear objetos e ações. A conversação mostra-se vazia ao nível do conteúdo, em parte porque a amnésia reduz a quantidade de informação disponível e também porque as alterações semânticas apenas permitem um pensamento concreto. Além destas alterações evidencia-se também uma fraca capacidade de manter um mesmo tópico de conversação e alterações ao nível da compreensão. Apesar de a leitura em voz alta se mantenha até fases mais avançadas, a compreensão da leitura altera-se precocemente. Em alguns casos a comunicação verbal faz-se de forma muito restringida, chegando mesmo ao mutismo.

As alterações na alimentação começam a aparecer quando, para pessoa com Alzheimer, não faz sentido ingerir alimentos. O não reconhecimento dos alimentos aliado à dificuldade em utilizar os talheres/copo podem levar a um risco de malnutrição e desidratação. Além disso, ocorrem frequentemente episódios de esquecimento de ingestão de alimentos e de dificuldades de deglutição/mastigação. Estas dificuldades aparecem pelo fato de permanecerem com o alimento na boca por muito tempo sem saberem o que devem de fazer com ele e como o engolir. Por estas questões a pessoa pode manifestar perda de interesse na alimentação sendo necessária a monitorização por parte dos cuidadores e profissionais de saúde envolvidos.

Neste árduo caminho que a pessoa com Alzheimer e suas famílias atravessam, o Terapeuta da Fala e outros profissionais como o Terapeuta Ocupacional podem ser bons aliados para a reabilitação de capacidades que a pessoa tem vindo a perder, mas sobretudo para atuar preventivamente, de forma retardar o aparecimento de sintomas.

Bibliografia

Peña-Casanova, Jorge. Enfermedad de Alzheimer – Del diagnostico a la terapia: conceptos y hechos. Barcelona: Fundación “la Caixa”, 1999.
Peña-Casanova, Jorge. Enfermedad de Alzheimer – Actualización 2005. Barcelona, Fundación “la Caixa”, 2005.