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Artigo publicado na Revista Crescer

Autor: Psicóloga Carla Pereira

Lidar com a morte, ou simplesmente abordar este tema, não é tarefa fácil. Quando falamos em processo de luto, estamos a falar na perda de alguém significativo e na adaptação a essa mesma perda. Muitas vezes a dificuldade que os adultos manifestam em abordar o tema da morte, ou em lidar com a perda, reflete-se na forma como preparam as crianças para esta realidade.

No caso das crianças, que são particularmente vulneráveis, o sentimento de impotência e abandono podem estar bastante presentes numa situação de luto. É muito importante que os adultos significativos se mostrem disponíveis para apoiar a criança, sejam capazes de ouvi-la e responder às suas dúvidas e questões.

Importa salientar que o conceito de morte e a sua compreensão pela criança vai sofrendo alterações ao longo do desenvolvimento, o que significa que devemos adequar o nosso discurso e as explicações que são dadas à criança de acordo com o seu nível de desenvolvimento.

Dizer a verdade, mas de forma que a criança consiga compreender é muito importante. Devem ser evitadas frases como «está a dormir para sempre» ou «foi-se embora para sempre», sem outras explicações mais concretas, pois este tipo de explicação pode gerar medos, sentimentos de insegurança e desproteção.

Omitir a morte de alguém significativo também não é aconselhável. As crianças apercebem-se das mudanças que decorrem face à morte de alguém, observam e sentem mudanças emocionais nas pessoas e no meio envolvente, o que gera muitas vezes dúvidas e questões. Os adultos significativos devem mostrar-se disponíveis para responder às suas questões e tranquilizá-las relativamente ao futuro e às mudanças que possam surgir depois da perda. As crianças devem estar envolvas num ambiente de segurança e aceitação que lhes permita a expressão de sentimentos relativamente à perda e à morte.

As crianças devem estar presentes no funeral?

Uma das dúvidas que muitas vezes surge é se as crianças deverão ou não participar nos rituais fúnebres. De acordo com a literatura, sensivelmente a partir dos cinco anos, as crianças deverão ter a oportunidade de decidir se querem ou não comparecer a um funeral, contudo, estas devem ser informadas antecipadamente daquilo que se irá passar, o que poderão ver e experienciar. Dizer-lhes, por exemplo, que irão ver muitas pessoas a chorar, que o corpo da pessoa que morreu estará num caixão, etc. Perante estas informações a criança poderá decidir se quer ou não estar presente e a sua vontade deverá ser respeitada, pois os rituais fúnebres (independentemente da religião ou cultura) assumem um significado importante na «despedida» e contribuem para um processo de luto normativo. Poderá ainda perguntar-se à criança se há algo que gostaria que fosse enterrado com a pessoa, como um desenho, um objeto especial ou uma carta sua.