Apresento-te o Birras!

Quando a timidez se transforma…
30/04/2017
Nome de Ameaça: Bullying
30/04/2017

Artigo publicado na revista ABCriança e Portal Barrigas de Amor 

Autor: Psicóloga Sandra Alves

As birras das crianças podem ser poderosas e são frequentemente uma verdadeira dor de cabeça para pais e cuidadores… Parecem estar em todo o lado e uma simples ida ao supermercado pode ser uma tormenta!

É importante compreender o fenómeno das birras considerando o período desenvolvimentista em que as crianças estão. Se o seu filho se encontra na faixa etária dos 2 – 5 anos, é a altura perfeito para que o Birras queira instalar-se na sua família! Em grande parte, tudo isto se encontra relacionado com as características cognitivas típicas destas idades. Pois, o pensamento das crianças é caracterizado por algum egocentrismo. Isto é, tendem a perceber as situações apenas do seu ponto de vista, e não se colocam no ponto de vista das outras pessoas, nomeadamente dos pais ou demais cuidadores. Experienciam a mesma dificuldade face à capacidade para anteciparem e compreenderem os sentimentos dos outros – leitura da mente. Desta forma, as crianças centram-se nos seus próprios interesses e negligenciam as regras impostas pelos adultos.

Estas dificuldades são mais visíveis se as consequências tiverem lugar a longo – prazo, e não representarem uma ameaça real para a criança. Exemplo, caso de supermercado! Uma criança pede ao pai uma boneca e o pai responde “não te posso dar agora, porque senão não teremos dinheiro suficiente para as compras do final do mês”. Esta consequência é demasiado distante para que a criança a possa verdadeiramente compreender e aceitar, pois tem o seu calendário centrado no tempo presente. A acrescentar a todas estas características, a criança começa agora a representar mentalmente o mundo. Percebe que o mundo é feito de imensos estímulos atrativos, que são afinal, feitos para ela!

Mas não, não tem de aturar o Birras dentro de sua casa! Deve aliás fechar-lhe a porta! Quando não se colocam termo às birras das crianças, e estas não aprendem que a convivência na sociedade se realiza através de regras, poderá vir a ter entre mãos um futuro ditador.

Aqui se seguem algumas sugestões de como estruturar as regras e limites na sua vida diária:

Implemente regras claras – Quando se dirige a um sítio público, apresente-lhe as consequências positivas e negativas decorrentes do seu comportamento. Antes de entrar numa loja, estabeleça contacto visual com o seu filho e exponha de forma clara o comportamento que espera e o que vai acontecer como resultado: “Quando entrarmos na loja, quero que fiques ao pé de mim. Não foges para lado nenhum. Se ficares ao pé de mim, divertimo-nos e depois tens uma recompensa. Se não ficares ao pé de mim, vais fazer uma pausa para o carro.” Confirme que o seu filho percebeu as instruções, fazendo-o repeti-las.

Dê apoio ao seu filho – Ao entrar num local público, comece imediatamente a comentar de modo positivo o comportamento do seu filho. “Obrigado por ficares ao pé de mim. Gostei muito.” Continue a reforçar a atitude do seu filho com frequência.

Use a pausa, se necessário – Assim que o seu filho começar a violar as regras, pode pegar-lhe na mão com firmeza e levá-lo até ao carro (ou canto da loja) para uma pausa de cinco minutos.

Não preste atenção à birra – Na presença duma birra, o passo essencial é não satisfazer o pedido da criança. Se o fizer, estará a dizer à criança que o seu mau comportamento lhe oferece privilégios. Em vez disso, afaste-se da criança e ignore-a. Se não for capaz de tomar esta atitude, retire a criança do espaço em que se encontra. Leve-a para casa e coloque-a numa divisão da casa sem distrações, onde possa refletir acerca do seu mau comportamento. Não lhe dê atenção, nem procure dar nenhum sermão à criança nesta altura, pois o seu estado emocional de exaltação não o vai permitir.

Quando a birra terminar, converse com a criança – Explique-lhe com clareza que este tipo de comportamentos não leva a nada. Poderá aplicar um pequeno castigo, de acordo com a regra que havia estipulado. Não ameace, aplique o castigo! Seja consistente, se não o fizer, a criança poderá aproveitar-se desse facto para obter mais recompensas. Se decidir aplicar um castigo, faça-o imediatamente a seguir ao mau comportamento. Se deixar passar muito tempo, a criança deixará de associar o castigo a esse comportamento em concreto, pelo que o castigo deixará de ter o efeito pretendido.

Planeie de forma adequada a sua rotina – Para evitar confusões e brigas constantes, planeie a sua rotina, e evite levar o seu filho para locais onde se destabilize frequentemente.

Sugestões Práticas

As crianças destas faixas etárias adoram que lhes contem histórias! Uma forma ótima de colocar em prática todas estas aprendizagens é ler a história “O Birras queria ser da Família da Clara”, explicando-lhe sumariamente quem é o Birras e o que faz às crianças. Explique-lhe que as armas para vencer o Birras são as boas maneiras e a educação, e que terá de ser muito corajosa e brava para sair vencedora desta luta! As crianças reagem bem perante desafios, e esta é uma forma de tornar mais divertida uma série de ensinamentos que podem ser muito difíceis de aceitar…
Ainda assim, não se iluda, poderão haver recaídas… A regra a usar é a da persistência, sempre!

Boa aventura contra o Birras!