Amamentação e fala: que relação?

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Autor: Terapeuta da Fala Andreia Batista

A sucção apresenta um papel importante no desenvolvimento orofacial, que irá igualmente refletir-se na produção de fala. Caso surjam dificuldades o terapeuta da fala pode ajudar.

A sucção é o ato de extrair, tirar, sugar algo e está presente desde a vida intra-uterina como um reflexo. É através dela que a criança se alimenta ao nascer.

Desde sempre se tem falado sobre a importância da amamentação, não só pela prevenção de doenças no bebé, devido aos anticorpos adquiridos no leite materno, como também pela prevenção do cancro da mama, aspetos nutricionais e pela relação afetiva que se estabelece entre a mãe e o bebé. Para uma boa pega ao peito, o bebé tem de abocanhar todo o mamilo e parte da auréola.

Para além dos benefícios acima descritos, a amamentação auxilia o crescimento e desenvolvimento do sistema estomatognático (lábios, língua, dentes, palato, mandíbula e maxila e músculos/ossos da face). Ao nascer, o bebé apresenta a mandíbula pequena e retraída e os movimentos realizados por ele durante a sucção ao peito vão propiciar um desenvolvimento adequado da mesma. Para o bebé extrair o leite do peito da mãe, tem de pressionar o mamilo contra o palato com a língua e a mandíbula tem de realizar movimentos para a frente e para trás, para cima e para baixo, tarefa que cria uma pressão intraoral negativa necessária para a sucção.

Estes movimentos, realizados várias vezes ao dia, vão estimular o posicionamento da mandíbula mais para baixo e para a frente. Assim, ela ficará em contato com a maxila e proporcionará uma posição adequada à erupção dos dentes decíduos (dentes de leite). Desta forma, poderá prevenir futuras alterações das arcadas dentárias, como por exemplo, a projeção dos dentes superiores para a frente.

Os movimentos que a mandíbula realiza durante a sucção adequada, ativam os músculos que também irão participar na mastigação. Com o favorecimento de um crescimento adequado da mandíbula, a língua, que no bebé ocupa toda a cavidade oral, ganha uma maior amplitude de movimentos, permitindo que se movimente para os lados (por exemplo). Esta nova capacidade torna-se importante também para a futura mastigação uma vez que é a língua que leva o alimento até aos molares para serem triturados.

A amamentação ao peito é recomendada que ocorra em exclusivo até aos seis meses de idade do bebé (segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS). Contudo nem sempre se torna possível por várias razões como alterações do mamilo/mama da mãe, produção insuficiente de leite ou até a vida profissional das mães que as levam a estar ausentes durante as horas de alimentação dos filhos. Quando isto acontece, a criança começa desde cedo a usar o biberão que, não havendo alguma atenção relativamente à sua forma e ao uso, pode promover o aparecimento de alterações ao nível do sistema estomatognático no futuro.

A tetina deverá ser ortodôntica de forma a que o seu bico se assemelhe ao mamilo da mãe. Se esta não for adequada pode interferir no desenvolvimento anatómico da boca do bebé, como por exemplo, entortar os dentes e afundar o palato. O uso da tetina ortodôntica proporciona a elevação da língua, a aproximação dos lábios, estimulando toda a musculatura orofacial de forma adequada propiciando o crescimento mandibular como na amamentação natural.

Figura 1: A- Tetina fisiológica; B- Tetina ortodôntica

A fala é o meio de comunicação mais fácil que temos para interagir com o mundo que nos rodeia. Para que esta ocorra sem perturbações, é necessário uma harmonia muscular e estrutural de todo o nosso sistema estomatognático. Através da movimentação dos articuladores ativos (lábios, língua e palato mole) e com a participação dos articuladores passivos (dentes e palato duro), o ar que saí dos pulmões e que passa pelas pregas vocais que produzem som, é modulado nos vários sons da fala. Por vezes esta modulação é tão complexa e rápida, evidenciando assim a necessidade de um adequado sistema estomatognático a todos os níveis.

Como vimos atrás, o esforço realizado pelo bebé durante a sucção faz com que toda a sua musculatura orofacial seja trabalhada o que lhe confere um bom reconhecimento da cavidade oral. Dado que a sucção é o meio pelo qual o bebé se alimenta nos primeiros meses de vida, a sua realização de forma adequada auxiliará a aquisição adequada da produção dos sons da fala, favorecendo deste modo, a prevenção de perturbações articulatórias.

Contudo nem sempre a presença da sucção promove o correto desenvolvimento orofacial. Uma criança que utilize frequentemente a chupeta (sucção não nutritiva – sucção que não tem o objetivo de saciar a fome) ou faça sucção digital, principalmente após os dois anos, poderá vir a ter alterações orofaciais que potenciarão o aparecimento de alterações na fala. O uso de chupeta além dos dois anos de idade ou a presença de sucção digital pode alterar a postura dos lábios e da língua, prejudicar o tónus dos músculos orofaciais, induzir padrões de movimentos incorretos durante a deglutição, alterar as arcadas dentárias e a mastigação, promover a respiração oral (que prejudica o crescimento orofacial) e prejudicar a emissão correta dos sons da fala.

É importante salientar que, mesmo até aos dois anos, a chupeta que é dada à criança deve ser cuidadosamente escolhida. Esta deve ser igualmente ortodôntica para facilitar a aproximação dos lábios e a elevação da língua, e a parte externa, de plástico, deve ser côncava em relação aos lábios. Existem dois tipos de materiais para o bico da chupeta, látex (amarelado) e silicone (transparente ou esbranquiçado). O primeiro é mais macio e recomendado para crianças que tenham uma força de sucção mais baixa, embora se deforme com mais facilidade. O segundo, de material mais forte, permite uma melhor higienização e não se deforma com o uso. É recomendado para crianças que tenham uma boa força de sucção ou para promover o aumento dessa força.

Como vimos, a sucção apresenta um papel importante no desenvolvimento orofacial, que irá igualmente refletir-se na produção de fala. Sempre que existirem dúvidas ou se procura um aconselhamento, o Terapeuta da Fala poderá ajudar e perceber se já existem fatores que podem propiciar perturbações no futuro. A intervenção terapêutica além de incidir na (re) habilitação de perturbações instaladas tem igualmente um papel de preventivo.

Bibliografia

Cunha, Vera Lúcia Orlandi. Prevenindo problemas na fala pelo uso adequado das funções orais. São Paulo: PróFono, 2001.