Adoção

Orientação vocacional
30/04/2017
Ano novo, vida nova!
30/04/2017

Artigo publicado no Portal Barrigas de Amor (exclusivo)

Autor: Psicóloga Alexandra Rosa

O que é ser pai/mãe? Porque desejamos ser (ou não ser) pais? O que significa para cada um de nós ter um filho? Muitas vezes refleti sobre estas questões com casais, no âmbito das questões da (in)fertilidade ou ao abordar os seus projectos idealizados e sonhados, sobre adoção.

Encontro muitos homens e mulheres, empenhados em vencer os obstáculos que a natureza lhes coloca à concretização de uma gravidez, reticentes em pensar na possibilidade de adoção. Por outro lado, casais que, tendo filhos biológicos, desejam intensamente receber uma criança que não foi gerada por eles. Adoptar é uma das faces do verbo Amar, é entender a paternidade para além do património genético, é ver para além do cor-de-rosa e aceitar de braços abertos as dificuldades.

Desde o seu início o processo de adoção revela-se uma “gravidez” demorada e repleta de angústias e ansiedades. A dureza desta espera, das avaliações, do escurtínio, o medo de não ser considerado “apto”… é este o início de uma grande aventura, com caminhos nem sempre planeamos e onde a paisagem nem sempre é verdejante.

Um dia, um telefonema, O TELEFONEMA, revela a proximidade deste parto. Esta nova etapa suscita alegria e antecipação, pois o filho tão longamente esperado vai conhecer aqueles que se propõem a ser seus pais.

A primeira grande revelação: quem adota não são os pais. É a criança que vai decidir se os quer adotar como pais. E esta epifânia pode ser desconcertante mas é na verdade maravilhosa.

Vários processos vão decorrer com tranquilidade:  a criança aceita estes pais, os pais abrem o seu coração e, ocorridas a adaptações necessárias, temos uma família que se vê e sente como tal. Outros casos serão mais exigentes e desafiantes. Meninos que não vão facilitar a vida aos cadidatos a seus pais. Eles vão testar, desafiar, vão tentar encontrar os limites. Querem ver se aquelas pessoas são feitas daquilo é preciso para serem seus pais. E este desafio, de uma exigência física e psicológica impressionantes, é algo para o qual os candidatos a pais de coração nunca estão verdadeiramente prevenidos.

Nos casos em que a criança adotada é muito pequenina, surge a pergunta: “Devo contar a verdade?” Sempre! As relações de afeto devem ter por base a verdade e a confiança. A criança deve conhecer desde sempre e com toda a naturalidade o contexto da sua chegada à nova famíla, sendo o aprofundar desta temática feito progressivamente, adaptado à sua idade e à medida do seu desejo de saber.

A criança adotada não é uma folha em branco pois tem uma história, possui marcas de afetos e desafetos, viveu experiências, tem expetativas. Pode ter (e frequentemente tem) um medo enorme da desilusão e do abandono!

Lembro-me da Sara, 5 anos, que insistia em dizer áquela mulher, que desejava tanto ser a sua mãe, que a o-d-i-a-v-a, recusando qualquer aproximação ou carinho e que insistia em exibir um mau comportamento em casa e na escola. Ou do Miguel de 8 anos, menino dócil e afetuoso mas extremamente desafiante, tornando cada refeição, banho ou saída para a escola, numa verdadeira batalha épica com birras, pontapés e choros intermináveis.

Amas-me? Queres-me? Quanto?  E continuas a amar-me se eu for mau? E se me portar mesmo muito mal? Aposto que vou conseguir levar-te ao ponto da desistência e também tu me vais abandonar … (sic. vozinha que vive na cabeça  da criança , naquele lugar conhecido por inconsciente).

O amor pode não ser imediato. Muitas vezes não o é. O amor vai germinando e crescendo, tornando-se sólido. Quando um dia olhamos nem acreditamos no tamanho do sentimento que cresceu, como aquele filho já preencheu o coração de forma tão definitiva. Chega também o dia em que esta autêntica recruta militar termina e os esforços e provações são recompensados com todo o amor que este filho tem para dar. A verdade é que quando nos propomos a ser pais (de filhos biológicos ou adotados) inscrevemo-nos para o maior desafio das nossas vidas, muitas vezes, senão sempre, sem a plena consciência do passo que nos propomos a dar. A viagem da paternidade tem momentos bons e outros de fugir (mas ficamos, sempre) e vai revolucionar a pessoa que somos e como vemos o mundo, os outros. Vai levar-nos a sentimentos que desconhecíamos, ao sofrimento extremo e a uma felicidade impossível de tão grande.

Este caminho, tal como outros caminhos que nos conduzem ao  papel de pais, esta tarefa para a vida de “amar e formar uma pessoa” é um meio muito especial, e diria mesmo espetacular, de dar um sentido às nossas vidas.