A evolução da linguagem até aos 3 anos

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Artigo publicado em Revista ABCriançaPortal Barrigas de Amor  e Portal do Bebé

Autor: Terapeuta da Fala Rita Costa

Durante a gravidez os pais esperam ansiosamente a chegada do seu rebento, uma nova etapa, uma nova vida, um novo ser… Um ser que nasce e cresce impressionantemente rápido, as roupinhas deixam de servir, surgem novos gestos, novas gracinhas, novas vocalizações… Inicia-se o caminho da comunicação: um choro diferente para cada necessidade, um sorriso em resposta ao nosso sorriso, uma gracinha repetida para nos ver sorrir, a primeira palavra que nos faz celebrar, os primeiros passinhos que para nós merecem uma festa!

O ser humano é um ser social, comunicar é primordial e a fala é o veículo de comunicação privilegiado.

Para os pais surgem muitas vezes inseguranças: quando é que o seu bebé vai começar a falar? Será que já devia dizer mais coisas? Quando é que vai começar a fazer frases? Como é que eu devo levar para que me entenda? Para responder a estas e outras questões vamos percorrer as etapas de desenvolvimento linguístico até aos 3 anos, altura em que qualquer adulto deverá já compreender o discurso da criança, não esquecendo, no entanto que cada criança tem o seu ritmo de desenvolvimento que tem que ser respeitado.

Se houver dúvidas, fale com o seu médico de família, com o seu pediatra e não deixe de consultar um terapeuta da fala, estes são os profissionais a quem deve recorrer para que sejam efetuados os despistes necessários e para que, em caso de necessidade, a intervenção seja o mais precoce possível.

0 aos 6 meses

O que acontece?

– Chora de forma diferente consoante as necessidades: Nas primeiras 8 semanas de vida, o recém-nascido tem a sua comunicação muito reduzida, só tem à sua disposição o choro reflexo para expressar desconforto. A partir da 8ª semana o bebé torna-se mais responsivo, começa a saber manifestar a sua satisfação, o seu bem-estar, o gosto pela companhia dos interlocutores. Progressivamente o adulto vai conseguindo distinguir entre choro de dor (cólicas por exemplo), fome, sono, chamada de atenção por querer companhia …
– Reage a sons e começa a dirigir o olhar e/ou a cabeça na sua direção.
– Produz sons (sucção, arrotos, soluços, espirros, suspiros, palreio).
– Manifesta os primeiros sorrisos intencionais, a primeira manifestação de bem-estar físico, psíquico e afetivo.
– Começa a “conversar” (protoconversação) surgindo as primeiras alternâncias na tomada de vez da comunicação, a sobreposição das vocalizações do bebé e do adulto são menos frequentes.

Conselhos

– Escute e responda às iniciativas do bebé (choro, movimentos corporais, riso, olhar…): Se por exemplo o bebé chorar com fome diga: “Calma bebé, a mamã já vai dar de mamar…”.
– Cante e ria com o bebé: O canto acalma os nossos bebés e o riso é por excelência uma manifestação de bem-estar.
Fale com calma com o bebé: Aqui as rotinas diárias têm uma importância crucial, constituirão as bases para as primeiras aprendizagens semânticas, utilize frases simples e:
– Explique-lhe o que ouve;
– Explique-lhe o que faz durante a alimentação, higiene…
– Nomeie pessoas familiares e objetos do dia-a-dia.

Sinais de Alerta

– Não reage aos sons.
– Não estabelece contacto ocular.

6 aos 12 meses

O que acontece?

– Balbucio reduplicado: Mais do que produzir sons começa a produzir cadeias vocais dos mesmos sons repetidos /mamamamama/, /tatatatata/, /bababababa/ e consegue produzi-los durante bastante tempo seguido.
– Reage ao seu nome, olhando para si quando o chama.
– Reage quando o adulto nomeia objetos do uso comum, por exemplo se o adulto nomear um brinquedo que o bebé goste, ele vai querer alcança-lo ou olhar na sua direção.
– Diz 1 ou 2 palavras, habitualmente “mamã” ou “papá” porque contêm consoantes bilabiais, as mais fáceis a ser aprendidas por serem as mais visíveis.

Conselhos

– Encoraje todos os tipos de interação (expressão facial, riso, olhar…), ajude o bebé a descobrir o prazer da comunicação.
– Dê tempo ao bebé para responder: É importantíssimo estimular a troca de turnos durante a comunicação e isto pode ser feito durante um qualquer jogo, por exemplo de encaixes, eu encaixo, tu encaixas… A imitação é também um ponto de partida para o turn-taking, o bebé faz, o adulto imita e o bebé volta a imitar.
– Responda ligeiramente acima do nível das produções da criança: Aqui o importante é que expanda os enunciados da criança, por exemplo, a mãe está a brincar com a criança e o bebé produz /mamamamama/, a mãe pode dizer: “/mamamama/, sim a mamã está aqui, a mamã está a brincar com o bebé”.

Sinais de Alerta

– Não reage ao seu nome.
– Não reage a sons familiares como o telefone.
– Deixa de produzir sons.

 12 aos 18 meses

O que acontece?

– Identifica objetos de uso comum.
– Compreende verbos de ações relacionadas com a vida diária.
– Diz palavras isoladas com sentido de uma frase (ex.: dá, pai, mãe).
– Repete palavras familiares.
– Imita ações do adulto.

Conselhos

– Responda ligeiramente acima do nível das produções da criança.
– Dê o modelo correto, mas atenção que nesta idade é normal que a criança não diga as palavras corretamente, o importante nesta fase é que as diga e não como as diz.
– Mostre-lhe livros e fale sobre eles.

Sinais de Alerta

– Não usa palavras isoladas.
– Não reage quando brincam com ele (ex.: olhando ou sorrindo).

18 aos 24 meses

O que acontece?

– Identifica objetos e imagens de objetos.
– Identifica partes do corpo.
– Compreende ordens simples (ex.: “anda cá”).
– Diz o seu nome.
– Junta 2 palavras em frases simples (ex.: “não quero”).

Conselhos

– Enriqueça o seu vocabulário nas situações do dia-a-dia, bem como as frases, por exemplo se a criança disser “popó aqui”, o adulto pode dizer “O popó está aqui”.
– Produza palavras que ele não utiliza.

Sinais de Alerta
– Não compreende ordens simples.
– Não produz mais do que 5 palavras.

2-3 anos

O que acontece?

– Brinca ao faz de conta, por exemplo dar de comer a um boneco.
– “Idade dos porquês”.
– Grande expansão de vocabulário.
– Nomeia e diz para que servem objetos comuns.
– Identifica imagens de ações.
– Identifica grande, pequeno e muito.
– Produz frases com 4 palavras (ex.: Eu quero um gato!; Hoje vou à escola!; Eu gosto de gelado!).
– Começa a produzir frases coordenadas (ex.: “Eu quero um gato e um cão.”).
– Utiliza predominantemente substantivos.
– Utiliza verbos, adjetivos, determinantes, pronomes pessoais, alguns advérbios e preposições.
– Já começa a fazer a variação em género e número.

Conselhos

– Envolva a criança nas atividades do dia-a-dia.
– Reserve tempo para ouvir a criança e responder-lhe.
– Expanda os seus enunciados, por exemplo se a criança disser “comer”, diga “Vamos comer a sopa”.
– Façam jogos em que cada um joga na sua vez (lotos de imagens, de identificação de sons, de associação de pares, cores…)
– Se a criança ainda usa o biberão e/ou a chupeta, encoraje-a a deixar de usar!

Sinais de Alerta
– Não junta 2 palavras em frases simples (ex.: “dá pão”).
– O discurso não é percepetível.

Bibliografia:

Prevention: Developing Language, disponível em www.cplol.org
Rebelo, Ana e Vital, Ana. Desenvolvimento da linguagem e sinais de alerta: Construção e validação de um folheto informativo. Re(habilitar), nº 2, Edições Colibri, 2006, pp.69-98.
RIGOLET, Sylviane A.. Os Três P (Precoce, Progressivo, Positivo): Comunicação e Linguagem para uma Plena Expressão. Porto: Porto Editora, 2000.
SIM-SIM, Inês. Desenvolvimento da Linguagem. Lisboa: Universidade Aberta, 1998.